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Wiliam Habib Chahade
Diretor do Serviço de Reumatologia do
HSPE-FMO. Monitor Científico da O.M.S. (Genebra) para a América do Sul da
"The bone and joint decade 2000-2010".
As crendices populares e os comentários
ilusórios, baseados em falácias, identificam uma série de fatores que muitas
vezes são evocados como elementos do meio ambiente e detonadores da eclosão
de doenças reumáticas, em particular algumas auto-imunes (entre estes fatores
são citados as alterações climáticas - frio, umidade, sol -, o estilo de
vida, as infecções, determinados agentes tóxicos e fármacos etc.)(3,4).
Deste modo, em certas ocasiões, contribuem para uma conturbada relação
médico-paciente, ao desvalorizar tanto a experiência do reumatologista quanto
os elementos científicos consensuais.
É muito difícil estabelecer inter-relações entre fatores ambientais e doenças
reumáticas pela falta de:
- Número suficiente de pacientes com características semelhantes;
- Grupos-controle adequados;
- Elementos bem definidos que possam ser responsabilizados pelo aparecimento
da enfermidade.
Definir mediadores ambientais patogênicos específicos capazes de desencadear
ou acelerar uma doença auto-imune continua sendo objetivo contínuo de
investigação. Fatores que promovem a patologia, geralmente, não são idênticos
àqueles que influenciam a gravidade ou a progressão das manifestações
clínico-patológicas. Hipótese bem aceita é aquela que procura associar certos
genes de suscetibilidade com agentes químicos, farmacológicos e outros do
meio ambiente e, assim, podendo desempenhar importante papel na ativação de
mecanismos patogênicos. Luz ultravioleta pode ser o gatilho em algumas formas
de lúpus, fumar pode agravar ou piorar várias doenças reumáticas, assim como
o L-triptofano contaminado pode induzir o aparecimento de injúria escleroderma-símile.
Os investigadores têm sido capazes de elucidar a incidência, prevalência, índices
de mortalidade, fatores raciais, idade, sexo e associações com comorbidades;
e genes, como supostos candidatos a certas associações, têm sido
identificados.
Algumas síndromes graves parecem preencher os critérios de Rose. Em 1981,
20.000 indivíduos na Espanha desenvolveram febre, mal-estar, tosse, mialgias,
doença intersticial pulmonar e eritemas; posteriormente, alguns evoluíram com
fraqueza muscular intensa, contraturas articulares, fenômeno de Raynaud,
lesões cutâneas escleroderma-símiles e hipertensão pulmonar, observando-se
350 mortes. Isto foi atribuído a "síndrome do óleo tóxico". A
reutilização de óleo, já utilizado na cozinha e desnaturado por anilina,
iniciava o processo patológico(1).
Em 1989, uma condição similar foi descrita em pessoas que ingeriam L-triptofano,
como suplementação dietética, para promover o sono e o relaxamento muscular; eosinofilia
periférica acentuada, acompanhada de espessamento dérmico eram observados. Nestes
casos, encontraram-se dois fatores: um defeito no processo processo de
purificação da substância e um "shunt" anormal de L-triptofano para
kineurenina (agente tóxico).Associações com compostos de mercúrio,
sensibilidade química múltipla e siliconose (pacientes com implantes mamários
de silicone que não preenchiam critérios plenos para o diagnóstico de lúpus,
artrite reumatóide ou escleroderma) têm sido propostas.
Embora alguns não sejam consensuais, os principais fatores ambientais que
podem influenciar doenças reumáticas podem ser resumidos(3) em:
1. Clima: O frio definitivamente
piora o fenômeno de Raynaud que pode, por sua vez, fazer parte de
manifestações clínicas da esclerodermia e de outras doenças difusas do tecido
conjuntivo. A arterite de células gigantes e a polimialgia reumática são mais
prevalentes em regiões mais frias; não sabemos se isto é devido ao clima frio
ou se é do genoma compartilhado das pessoas que vivem nestas áreas. Modificações
na pressão barométrica produzem mais rigidez e dores em enfermos reumatóides;
2. Estilo de vida: Lúpus cutâneo
crônico é mais ativo em fumantes, sabendo-se que o fumo pode diminuir a
eficácia de fármacos antimaláricos. O fumo pode estar associado com o
aparecimento de nódulos reumatóides e a doença pode ser mais grave. Óleo de
peixe (em grandes doses) pode diminuir a inflamação na artrite reumatóide. Excesso
de bebidas alcoólicas e uso de diuréticos tiazídicos podem desencadear
ataques de gota.
As seguintes suposições necessitam ainda novas confirmações:
· Atividade da síndrome de Behçet melhora em fumantes;
· Cafeína pode desencadear surto na artrite reumatóide;
· Café sem cafeína pode aumentar o risco de artrite reumatóide;
· Ingestão de brotos de alfafa pode agravar o lúpus;
3. Transmissão de doença em grupos expostos:
Nunca foi documentada a transmissão da doença lúpica em funcionários de
laboratórios de patologia clínica que apresentam alta incidência de
auto-anticorpos antinucleares, assim como em pessoas que vivem no mesmo
ambiente de cães e gatos com lúpus. É possível que haja grupos de
esclerodérmicos em regiões industrializadas do Reino Unido e dos Estados
Unidos. Certas infecções podem desencadear o aparecimento de artropatia
reativa (síndrome de Reiter, como exemplo);
4. Estresse e trauma:
Provavelmente todas as doenças reumáticas possam apresentar surtos de
atividade quando na presença de estresse, em particular psicossocial;
5. Exposição ocupacional, químicos, luz
ultravioleta: Exposição à luz ultravioleta realmente melhora a psoríase,
mas desencadeia surto ativo em certas enfermas lúpicas. Esclerodermia pode
ocorrer em mineradores de urânio ou naqueles expostos à sílica, solventes
orgânicos e certos hidrocarbonetos alifáticos. Vários fármacos podem
desencadear formas clínicas de lúpus induzido (hidralazina, hidantoinatos, isoniazida,
clorpromazina, entre outros);
6. Imunizações: Existem
descrições de casos de surtos ou de indução de doenças reumáticas após
distintas vacinações. No entanto, não encontramos estudos epidemiológicos que
comprovem estes achados;
7. Doença por adjuvante: Não tem
sido comprovado que injeções de silicone ou instilações possam causar doenças
reumáticas, assim como não há estudos, com metodologias adequadas, mostrando
a piora de doenças auto-imunes preexistentes;
8. Outros(4): Não conclusivos;
uso de tintas para pintar cabelos, em mulheres, pode aumentar o risco de
desenvolver lúpus eritematoso sistêmico; estudos realizados para identificar
o início do LES com a utilização de contraceptivos orais foram considerados
negativos.
Não foram observadas em pesquisas dirigidas associações de fatores hormonais
e/ou reprodutivos com o início do aparecimento de LES(2).
Em conclusão, posso dizer que, apesar de várias e ilusórias crendices
populares, os dados que possuímos em relação as interferências participativas
do meio ambiente no aparecimento e progressão de enfermidades reumáticas não
estabelecem recomendações definitivas e consensuais, baseadas em pesquisas
científicas. Ficam como exceções(3): o frio e o fumo no desencadeamento do
fenômeno de Raynaud, o óleo de peixe em grandes quantidades (ao auxiliar no
controle da reação inflamatória) e o fumo (na piora), em enfermos reumatóides.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
1. Alonso-Ruiz A, Zea-Mendoza AC, Salazar-VA JM, et al. - Toxic oil syndrome.
A syndrome with features overlapping
with those of various forms of scleroderma. Semin Arthritis Rheum 15:200-12,
1986.
2. Cooper GS, Dooley MA, Treadwell EL, et al. - Hormonal and reproductive
risk factors for development of SLE: results of a population-based,
case-control study. Arthritis Rheum 46:1830-9, 2002.
3. Dooley MA & Hogan SL - Environmental epidemiology and risk factors for
autoimmune disease. Curr Opin Rheumatol 15:99-103, 2003.
4. Wallace DJ & Weisman MH - The role of environmental factors in
rheumatic diseases. Bull Rheum Dis 51(10): 1-5, 2002.
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