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Médicos pesquisam efeitos nocivos do jet lag

Estudo com comissárias de bordo aponta possíveis falhas na memória visual

SUSAN OKIE

The Washington Post

WASHINGTON - Quase todo mundo que já voou atravessando vários fusos horários foi vítima dos sintomas de jet lag -- cansaço, cabeça enevoada e um vago desconforto são experimentados por viajantes cujo relógio biológico está fora de sintonia com o meio ambiente.

Para pessoas que voam grandes distâncias, o jet lag pode ser mais do que um mal-estar passageiro. Um novo estudo conduzido com 20 comissárias de bordo indica que pessoas que sofrem de freqüentes e repetidos episódios de jet Iag podem apresentar problemas na memória

visual e até mesmo sofrer redução de uma parte importante do cérebro.

Se essas descobertas forem confirmadas, poderão ter implicações para funcionários de linhas aéreas e viajantes constantes, assim como trabalhadores que mudam de turno, médicos e gente que trabalha muitas horas seguidas. "As 8 milhões de pessoas que trabalham regularmente à noite nos Estados Unidos podem estar experimentando alguns desses mesmos fenômenos", disse o professor de Medicina da Harvard Medical School, Charles A. Czeisler. A pesquisa envolveu processamento de imagens do cérebro e testes de memória em comissárias que atravessam regularmente ao menos sete fusos horários. "Os dados revelam que o jet leg freqüente, sem o tempo suficiente para recuperação entre uma viagem e outra, afeta a estrutura e o funcionamento do cérebro", diz Kwangwook Cho, neurologista de Universidade de Bristol, na Inglaterra. Ele é autor do estudo publicado em junho na revista Nature Neuroscience.

"Estão sendo encontradas falhas no tecido cerebral em uma área envolvida na orientação espacial e em aspectos relacionados com a função cognitiva’, disse Thomas Wehr, chefe da seção de Biorritmos do Instituto Nacional de Saúde Mental. ‘Será preciso pesquisar mais para descobrirmos até que ponto isso se deve à privação do sono ou está relacionado com o jet Iag.’

Comissárias - Cho recrutou 20 comissárias de bordo saudáveis, com idades entre 22 e 28 anos, que trabalharam para várias linhas aéreas e tinham mantido o emprego durante cinco anos. Todas faziam vôos regulares que atravessavam ao menos sete fusos horários. Metade das mulheres (o "grupo com curto período de recuperação") passou cinco dias ou menos em terra, entre uma viagem longa e outra, no fuso horário natal, enquanto outra metade (o "grupo com período de recuperação longo’) passou mais de 14 dias em terra, no fuso horário natal, trabalhando em vôos mais curtos durante esse período. O número de horas dispendidas trabalhando e de folga foi equivalente nos dois grupos.

De cada participante, Cho retirou amostras de saliva para medir o cortisol, um hormônio cujos níveis normalmente oscilam em um ritmo diário, mas que se elevam durante períodos de estresse. Também fez uso de processamento de imagem por ressonância magnética, um tipo de escaneamento do cérebro, para medir o tamanho dos lóbulos temporais, as áreas envolvidas na linguagem, memória e emoção. E avaliou a memória visual, com um teste que exigia que as participantes lembrassem da localização de pontos pretos que apareciam rapidamente em uma tela de computador.

Nas comissárias de vôo pertencentes ao grupo com período de recuperação curto, o tamanho do lóbulo temporal direito -- região do cérebro essencial para a memória visual e espacial - estava ligeiramente menor do que o grupo com período de recuperação longo. O grupo com recuperação curta também apresentou desempenho mais fraco e reações lentas no teste de memória visual.

Cho ainda não sabe se o menor tamanho do lóbulo temporal direito no grupo com curto período de recuperação indica um dano permanente nas células nervosas ou apenas uma alteração temporária reversível. Mas acredita que o cérebro necessita de ao menos dez dias para se recuperar de uma viagem de ida e volta que atravesse vários fusos horários.

"Após mais de quatro anos de serviço, a maior parte da tripulação disse ter sentido uma piora na memória’, disse Cho. "Esse efeito pode ser prevenido alterando o cronograma de trabalho das comissárias".

Fonte: O Estado de São Paulo / SP 26-06-2001

 

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