|
Protegidos pela imunidade parlamentar, alguns políticos, como o
Senador Íris Resende, o deputado Ronaldo Caiado e o governador de
Goiás, Marconi Perillo, se uniram para atacar ferozmente e mesmo
ameaçar membros do movimento que luta pelo banimento do amianto em
nosso país e que tem se fortalecido diuturnamente com o apoio de
novos integrantes dos diversos segmentos da sociedade, nacional e
internacionalmente, constituindo-se numa alternativa ao modelo
excludente, patrocinado pela globalização da economia, através de
uma "globalização vinda debaixo ou de uma globalização
contra-hegemônica".
Para a defesa de seus interesses,
incluindo-se aí seus futuros políticos no estado minerador de
amianto, estes políticos se juntaram com pseudo-cientistas,
"contratados" pela empresa mineradora para provar que o
amianto brasileiro, ou asbesto, o de Goiás, diferentemente de todos
os outros no mundo inteiro, não faz mal à saúde. Relatórios
produzidos por esta "junk science" (lixo acadêmico)
afirmam "que os pulmões dos trabalhadores mineradores do
amianto estão mais protegidos do que o do restante da população
brasileira", constituindo-se na maior aberração científica
cometida no último século e motivo de chacota entre a comunidade
científica.
A tal "pesquisa", que tem
sido referida em vários informes publicitários publicados em
revistas de grande circulação, como Veja e Exame, recebeu
financiamento de R$ 1.32 milhão dos cofres da empresa ETERNIT em
Minaçu (antiga SAMA), fato este omitido até recentemente da opinião
pública e da própria FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado de São Paulo, que deu legitimidade até então à tal
"pesquisa", considerando que seus R$ 906 mil fossem a única
fonte pagadora e isenta de interesses, que no total custou: R$ 2.3
milhões. 40,75% da pesquisa foi sim financiada com dinheiro público,
que emprestou sua grife para que os outros 59,25% ficassem
"invisíveis".
Espanta-nos, portanto, que, diante de
provas irrefutáveis e de termos desmascarado o pesquisador-chefe da
UNICAMP - por ter faltado com a verdade em audiência pública no
dia 29/9/1.999 na Câmara dos Deputados em Brasília, quando afirmou
perante as Comissões de Trabalho, de Administração e Serviço Público
e a de Economia, Indústria e Comércio que a tal pesquisa era
"um projeto temático, financiado integralmente pela Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo" -, ainda se dê
alguma atenção para tal propaganda enganosa sobre o amianto, que
é a única função desta pesquisa, que infelizmente envolveu o
nome de instituições sérias e as quais respeitamos, como o INCOR
e a FAPESP.
É nítido o conflito de interesses
do pesquisador da Unicamp, Dr. Ericson Bagatin, que, além de
coordenar a tal pesquisa, que prova a inocuidade do amianto de Goiás,
desconsiderando o flagelo do uso deste minério em Osasco, São
Caetano do Sul, Leme, Rio de Janeiro e mesmo em Minaçu, cidade
mineradora, também é árbitro dos acordos extrajudiciais
oferecidos às vítimas da Brasilit, Eternit, Eterbras, SAMA,
condenando-os em seu julgamento "técnico" a míseros 5,
10 e 15 mil reais de indenização, enquanto ele e seu
"grupo" recebem milhões para contrariar o acúmulo científico
adquirido neste último século.
Por fim, gostaria de ressaltar que não
só os membros da Rede Virtual-Cidadã pelo Banimento do Amianto e
os da ABREA - Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto, que têm
percorrido incansavelmente a "via-crucis" nos
tribunais brasileiros em busca de justiça e não de esmolas, são
atingidos pelas ameaças do lobby pró-amianto, comandado pelos
referidos políticos, como toda a sociedade brasileira, que se vê
cerceada em seu direito à informação de qualidade e
cientificamente isenta, democracia e justiça social e ambiental e,
principalmente, o direito à sua saúde, que continuará exposta aos
males impostos pelo "mal do século" ou "a poeira
assassina", se continuar este lenga-lenga em Brasília e estes
debates estéreis.
Está claro que o objetivo deste
"lobby" é o de adiar "sine die"
decisões políticas como as que adotaram recentemente a prefeita
Marta Suplicy e as Assembléias Legislativas de São Paulo e Rio de
Janeiro, que aprovaram o banimento da produção e os novos usos de
amianto, acompanhando o que países que praticam políticas públicas
de saúde vêm fazendo há pelo menos duas décadas.
Fernanda
Giannasi é engenheira e coordenadora da Rede
Virtual-Cidadã pelo Banimento do Amianto para a América Latina
www.correiocidadania.com.br/ed246/geral.htm
|