A luta pelo banimento do amianto no Brasil 
e os contra-poderes

Por Fernanda Giannasi



Protegidos pela imunidade parlamentar, alguns políticos, como o Senador Íris Resende, o deputado Ronaldo Caiado e o governador de Goiás, Marconi Perillo, se uniram para atacar ferozmente e mesmo ameaçar membros do movimento que luta pelo banimento do amianto em nosso país e que tem se fortalecido diuturnamente com o apoio de novos integrantes dos diversos segmentos da sociedade, nacional e internacionalmente, constituindo-se numa alternativa ao modelo excludente, patrocinado pela globalização da economia, através de uma "globalização vinda debaixo ou de uma globalização contra-hegemônica".

Para a defesa de seus interesses, incluindo-se aí seus futuros políticos no estado minerador de amianto, estes políticos se juntaram com pseudo-cientistas, "contratados" pela empresa mineradora para provar que o amianto brasileiro, ou asbesto, o de Goiás, diferentemente de todos os outros no mundo inteiro, não faz mal à saúde. Relatórios produzidos por esta "junk science" (lixo acadêmico) afirmam "que os pulmões dos trabalhadores mineradores do amianto estão mais protegidos do que o do restante da população brasileira", constituindo-se na maior aberração científica cometida no último século e motivo de chacota entre a comunidade científica.

A tal "pesquisa", que tem sido referida em vários informes publicitários publicados em revistas de grande circulação, como Veja e Exame, recebeu financiamento de R$ 1.32 milhão dos cofres da empresa ETERNIT em Minaçu (antiga SAMA), fato este omitido até recentemente da opinião pública e da própria FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, que deu legitimidade até então à tal "pesquisa", considerando que seus R$ 906 mil fossem a única fonte pagadora e isenta de interesses, que no total custou: R$ 2.3 milhões. 40,75% da pesquisa foi sim financiada com dinheiro público, que emprestou sua grife para que os outros 59,25% ficassem "invisíveis".

Espanta-nos, portanto, que, diante de provas irrefutáveis e de termos desmascarado o pesquisador-chefe da UNICAMP - por ter faltado com a verdade em audiência pública no dia 29/9/1.999 na Câmara dos Deputados em Brasília, quando afirmou perante as Comissões de Trabalho, de Administração e Serviço Público e a de Economia, Indústria e Comércio que a tal pesquisa era "um projeto temático, financiado integralmente pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo" -, ainda se dê alguma atenção para tal propaganda enganosa sobre o amianto, que é a única função desta pesquisa, que infelizmente envolveu o nome de instituições sérias e as quais respeitamos, como o INCOR e a FAPESP.

É nítido o conflito de interesses do pesquisador da Unicamp, Dr. Ericson Bagatin, que, além de coordenar a tal pesquisa, que prova a inocuidade do amianto de Goiás, desconsiderando o flagelo do uso deste minério em Osasco, São Caetano do Sul, Leme, Rio de Janeiro e mesmo em Minaçu, cidade mineradora, também é árbitro dos acordos extrajudiciais oferecidos às vítimas da Brasilit, Eternit, Eterbras, SAMA, condenando-os em seu julgamento "técnico" a míseros 5, 10 e 15 mil reais de indenização, enquanto ele e seu "grupo" recebem milhões para contrariar o acúmulo científico adquirido neste último século.

Por fim, gostaria de ressaltar que não só os membros da Rede Virtual-Cidadã pelo Banimento do Amianto e os da ABREA - Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto, que têm percorrido incansavelmente a "via-crucis" nos tribunais brasileiros em busca de justiça e não de esmolas, são atingidos pelas ameaças do lobby pró-amianto, comandado pelos referidos políticos, como toda a sociedade brasileira, que se vê cerceada em seu direito à informação de qualidade e cientificamente isenta, democracia e justiça social e ambiental e, principalmente, o direito à sua saúde, que continuará exposta aos males impostos pelo "mal do século" ou "a poeira assassina", se continuar este lenga-lenga em Brasília e estes debates estéreis.

Está claro que o objetivo deste "lobby" é o de adiar "sine die" decisões políticas como as que adotaram recentemente a prefeita Marta Suplicy e as Assembléias Legislativas de São Paulo e Rio de Janeiro, que aprovaram o banimento da produção e os novos usos de amianto, acompanhando o que países que praticam políticas públicas de saúde vêm fazendo há pelo menos duas décadas.

Fernanda Giannasi é engenheira e coordenadora da Rede Virtual-Cidadã pelo Banimento do Amianto para a América Latina

www.correiocidadania.com.br/ed246/geral.htm

 

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