Todos
os que exercem a Medicina do Trabalho como Especialidade, com
certeza, já se surpreenderam com o desconhecimento a respeito da
especialidade, entre o publico leigo e, mais estranhamente ainda,
no próprio meio médico e acadêmico.
É
incrível como parece soar estranho, quando respondemos que
exercemos a “Medicina do Trabalho”.
A
Medicina do Trabalho, embora ainda tão desconhecida, é talvez
uma das especialidades médicas que possui um dos mais antigos
tratados específicos sobre o assunto.
Historicamente
em 1700, o Professor Bernardino Ramazzini, considerado o Pai da
Medicina do Trabalho, publicou um Livro de Medicina intitulado:
“De Morbus Artificum Diatriba”, ou seja “Tratado das Doenças
dos Artífices”.
Nesta
magnífica obra, que até hoje nos causa surpresa, pela
profundidade e riqueza de detalhes, talvez exista a resposta para
o desconhecimento e desprezo com que muitos ainda hoje encaram a
especialidade. Em seu prefácio, Ramazzini, referindo-se ao seu
livro e à especialidade:
“Estás
ardendo de desejo, livro querido, ansioso para seguires teu
caminho. Escuta, entretanto, meus conselhos paternais. Vou te
dizer, em poucas palavras, qual a sorte que te reserva o destino.
Como proclamas que vais ensinar
uma matéria nova, os sábios acorrerão a ti ávidos e curiosos.
Porém, mal terão eles lido duas pobres páginas, te enviarão
para plebéias quitandas, onde se expõem à plebe salsichas, sal
ou outras especiarias. Oh!
não fiques decepcionado. É
coisa freqüente verem-se até
imponentes Pandectas transformar-se em cartuchos de embalagens de
peixe, pimenta ou cheiroso cumim.
Não te esqueças de que fostes
elaborado em escuras oficinas e não em palácios de ricos, nem em
cortes brilhantes
onde sábios médicos, sempre pressurosos, estendem a mão aos
cozinheiros. Pensando assim, creio eu, serás menos iludido
como não o seriam livros de títulos pretensiosos se aqueles que
te lerem te devolverem para as oficinas onde nasceste”.
Como
já previa Ramazzini, a especialidade que se interessa e se dedica
ao estudo, prevenção e tratamento das agressões advindas do
trabalho, é pouco valorizada.
Entre
as múltiplas agressões, grande parte das alterações e
patologias tem sua origem e solução nas condições de trabalho,
infelizmente, completamente desconhecidas e ignoradas pelos
leigos, pela maioria da classe médica, inclusive pelos meios acadêmicos.
Há
alguns anos atrás, o editorial da Revista “La Medicina Del
Lavoro”, que é publicada desde 1906, pela Universidade de Milão,
causou uma grande inquietação no meio médico e acadêmico,
quando seu Autor intilou seu editorial: “Em busca dos Tumores
Perdidos”. Neste editorial ele questionava os médicos, de todas
as especialidades, quantos dos tumores diagnosticados diariamente,
tem sua origem nas “escuras oficinas”, nas substâncias
manipuladas ou inaladas, nas condições e nos ambientes de
trabalho?
Partindo
desta pequena e específica premissa é difícil justificar ou
continuar ignorando a especialidade que se dedica a este aspecto tão
relevante.
Muitas
vezes tenho perguntado, generalizando o editorial citado:
“Quantos, dos casos atendidos hoje no seu consultório, de
qualquer especialidade, a alteração ou a patologia, tem origem
no ambiente ou nas condições de trabalho?
Fico
surpreso, pois a maioria dos inquiridos, muitos profissionais
competentes, nem sequer pensam em correlacionar as queixas de seus
pacientes, com ambiente ou com as condições de trabalho. Muitos
esquecem a sugestão do próprio Ramazzini, de incluir a clássica
pergunta: “Qual é a sua atividade, qual é a sua função ou
qual é a seu trabalho?”.
Vamos,
como exercício mental, analisar a rotinas de algumas
especialidades:
Aquela
lente de contato receitada, pode ser utilizada no ambiente de
trabalho? Qual seria o comportamento de uma lente gelatinosa em
ambiente com vapores ácidos? Aquela alteração de pele, tão difícil
de regredir, tem relação com as substâncias manipuladas ou
presentes no trabalho? A rinite, a bronquite, a asma, a pnemopatia
deste paciente não teria sido desencadeada por um sensibilizante,
um alergeno ou por um agente presente no ambiente de trabalho? As
alterações hematológicas, mutações genéticas, mal formações
congênitas tem alguma relação com a atividade, com as substâncias
ou com o ambiente? As dores crônicas, os distúrbios
osteomusculares, tão comuns hoje em dia, são solucionáveis ou
tratáveis sem uma interferência efetiva no ambiente de trabalho?
Quem poderia orientar ou incentivar estas mudanças? Doenças
psicossomáticas, distúrbios neurocomportamentais, depressões,
stress, gastrites, dermatoses, e uma infinidade de outras alterações
de difícil correlação diagnóstica, não estariam intimamente
ligadas às exigências, turnos ou pressões existentes no
trabalho cada dia mais exigente e voraz?
Se
pararmos por um momento, e refletirmos sobre o assunto, é fácil
comprovar a importância da especialidade e sua profunda
inter-relação com as outras especialidades médicas, e outras
tantas não médicas.
Exercer
Medicina do Trabalho exige conhecimentos de ergonomia, de higiene
ambiental, de toxicologia, de nutrição, de legislação entre
tantos outros, para permitir interfacear com dignidade os
trabalhadores, empresários, engenheiros, técnicos de produção,
advogados etc...
Quando
me refiro ao Médico do Trabalho, é a esse profissional que me
refiro. Aquele que se dedica, que conhece a sua especialidade, que
sabe das suas limitações e que está sempre buscando novos
conhecimentos para prevenir doenças, acidentes, para estabelecer
nexos, elaborar programas de controle, orientar melhorias e
tratamentos para os ambientes e para os trabalhadores.
Apesar
das inúmeras melhorias implantadas desde a remota revolução
industrial, a cada dia surgem novas dificuldades, novas substâncias,
novas situações agressivas, novos e desconhecidos riscos,
equipamentos e tecnologias a desafiar a dedicação e a perspicácia
dos que resolveram se dedicar à saúde dos que labutam, desde as
escuras oficinas, em fétidas condições, até ao mais avançados
postos de trabalho de alta tecnologia, sem esquecer, entre eles, o
trabalho da próprio médico, talvez ainda um dos mais agressivos
física e psicologicamente.
A
Medicina do Trabalho é indiscutivelmente uma especialidade médica,
difícil de ser exercida, que exige dedicação, e que não pode
se ignorada, nem tratada como sub especialidade.
Acredito
que a única maneira de tornar a especialidade mais conhecida e
respeitada é através da dedicação, do estudo e melhoria da
qualidade dos profissionais que a exercem.
Dr.
Edoardo Santino
Especialista
em Medicina do Trabalho