|
Trabalhadores
de siderúrgicas vivem uma tragédia social. Empresas não aceitam
mais empregados que carregam seqüelas de doenças como a leucopenia,
redução drástica da taxa de leucócitos, causada pelo trabalho
nos altos-fornos.
Ana Beatriz Magno e
Cristina Ávila
Da equipe do Correio
Eles são fortes por
fora e fracos por dentro. A força de seus músculos ajuda a
explicar a história de sucesso da Companhia Siderúrgica Nacional,
a CSN, uma das líderes mundiais na produção de aço. A fraqueza
de seu sangue, no entanto, revela um enredo de fracasso, de doença.
Pelo menos 324 funcionários da CSN sofrem de leucopenia. Trata-se
de uma redução drástica dos leucócitos, mais conhecidos como glóbulos
brancos e responsáveis pela defesa do organismo.
"Perdi um olho.
Tive uma infecção no globo ocular, como minha resistência era
baixa, perdi uma visão", contou Sebastião Carlos Domingos, um
dos 18 trabalhadores da CSN, que ontem, sem terno, nem gravata,
desfiaram seus dramas na Comissão de Direitos Humanos da Câmara
dos Deputados numa audiência especial sobre contaminação química.
‘Dei minha vida para a siderúrgica e ela me roubou a vista".
Sebastião e seus
colegas viajaram de ônibus mais de 20 horas de Volta Redonda (RJ)
até Brasília. "Trabalhávamos no calor do purgatório, nos
fornos da siderúrgica. Hoje somos ninguém e ninguém quer saber de
nós", lamentou-se Eliazar Correia Malvão, outro leucopênico,
que recebe do INSS uma indenização de R$ 650 para sustentar quatro
filhos. Tem 43 anos de vida, 14 deles trabalhando na coqueria da CSN
onde se transforma o minério de ferro em aço.
Essa mágica da química
tem seus revezes: libera benzeno, o hidrocarboneto que em contato
sucessivo com o ser humano provoca depressão da medula óssea e
alteração das células. "Os estudos também mostram que o
benzeno é uma substância cancerígena, significa que essas pessoas
têm chances maiores de terem leucemia e linfoma, que é um tumor
maligno", explicou o Marco Antônio Vasconcelos Rego, baiano,
doutor em saúde pública, médico do Trabalho, que ontem também
participou da reunião na Câmara.
A CSN foi procurada
pelo Correio Braziliense desde terça-feira. Seu assessor de
imprensa Elton Fraga foi contactado pelo telefone e por E-mail,
prometeu dar a versão oficial da empresa sobre o assunto, mas até
as 21h40 de ontem não entrou em contato com a redação do jornal.
Outras empresas
A Companhia Siderúrgica
Nacional não é a única a espalhar os males do benzenos nas veias
dos trabalhadores. Levantamento feito em 1997, na Cosipa, Companhia
Siderúrgica Paulista, mostrou que 10% de seus funcionários sofriam
de benzolismo. Em 1992, na Companhia Petroquímica do Nordeste,
Copene, maior produtora de benzeno, 400 mil toneladas por ano, 400
homens foram afastados já com sintomas graves de leucopenia, conseqüência
do benzolismo.
"Ao todo, no
Brasil, existem mais ou menos quatro mil funcionários de petroquímicos
e siderúrgicas com leucopenia", contabilizou Arimatéia dos
Santos, capixaba e integrante da Comissão Nacional dos Portadores
de Benzolismo.
Além das dores nas
juntas, das arritmias cardíacas, das chances de câncer, esses
homens experimentam também uma tragédia social. Nos últimos anos,
muitos deles, receberam alta do INSS, foram liberados para
retornarem ao trabalho, mas não conseguem ser readmitidos porque,
por outro lado, as empresas se modernizaram, adotaram medidas de
seguranças e passaram a não aceitar empregados com taxas de leucócitos
inferiores a 5 mil por mililítro de sangue.
"Eu entrei com
8,2 mil leucócitos, mas quando fiquei doente baixei para 2 mil.
Hoje tenho 2,9 mil. Tive alta do INSS, mas empresa não me quer de
volta. Me demitiu e estou há dois anos desempregado com cinco
filhos para criar", explicou Clóvis Oliveira dos Santos, 49
anos, ex-funcionário da Empresa Brasileira de Engenharia, a EBE,
uma das empreiteiras que presta serviço para CSN.
As vítimas do
amianto
Somente em Osasco,
cidade da Grande São Paulo, existem 600 pessoas com doenças
provocadas pelo trabalho em fabricas de amianto —55 morreram,
depois de 1995, quando foram alertadas para as contaminações
provocadas pela indústria. O número de doentes representa 60% dos
1.000 operários examinados pela Fundacentro, órgão do Ministério
do Trabalho. Esse tipo de indústria tem mais de 20 mil
trabalhadores.
Conhecido também por
asbesto, o amianto foi um dos minerais mais usados pela indústria
no século passado. Está em caixas d’água, lonas e pastilhas de
freio de carros, telhas. Banido em 21 países, no Brasil a proibição
está em discussão na Câmara dos Deputados. "Provoca tipos
diferentes de câncer. Um deles, a mesotelioma, doença típica do
amianto. Pior do que Aids, porque para ela não existe coquetel de
remédios. É uma sentença de morte", diz a engenheira
Fernanda Giannasi, fiscal do Ministério do Trabalho desde 1983 e
colaboradora da Associação Brasileiras dos Expostos ao Amianto (Abrea).
Fernanda é considerada um símbolo da luta contra o amianto no
Brasil. Por isso, já sofreu ameaças de morte e responde a
processos movidos pelas indústrias, que tentam intimidá-la para
que abandone a Abrea.
Denúncia
Em exames feitos em
1.000 operários de fábricas em Osasco, interior de São Paulo, 600
estavam contaminados por doenças provocadas por amianto, 55 morreram
Amianto pulmões destruídos aos poucos.
A tosse não deixa
Sebastião Aparecido falar direito. Aos 64 anos, tem câncer.
Extirpou a metade de um dos pulmões, e o outro também está
comprometido — enfisema e asbestose (as fibras do amianto
alojam-se nos alvéolos comprometendo a capacidade respiratória.
Nos últimos seis anos, teve cinco pneumonias e uma tuberculose. Ele
somente soube que estava com câncer há dois anos, depois de
aposentado. Trabalhava como operário em uma fábrica de amianto, em
São Caetano do Sul, no ABC paulista. Começou com 16 anos, lixava
caixas de descarga de banheiro. Durante 33 anos respirou o pó do
amianto. "E um desaforo, a empresa ofereceu R$ 5 mil se não
estivesse tão mal, R$ 10 mil se estivesse mais grave ou R$ 15 mil
se a situação estivesse muito ruim mesmo", conta a mulher
dele, Irene Ortiz, 60. O casal não aceitou a proposta da empresa,
vive com a aposentadoria dele de R$ 350. "Quando nasci, meu pai
trabalhava na mesma fábrica. Morreu de câncer no pulmão, mas na
época a gente nem imaginava que fosse resultado dos 40 anos de
trabalho, em uma empresa que ele tinha idolatria", conta Irene.
POLUENTES (POPs)
Risco de câncer é
real
As noites de José de
Souza Filho, 36 anos, são penosas. "Eu me irrito facilmente e
só consigo dormir por etapas, nunca um sono inteiro, acordo
arrasado", conta. Ele trabalhou cinco anos, até 1993, em uma fábrica
do pólo petroquímico de Cubatão (SP). Foi contaminado por
hexaclorobenzeno, substância química industrial, um dos chamados
Poluentes Orgânicos Persisterites (POPs), poluentes encontrados em
todo o planeta. Causam câncer e outras doenças crônicas, como as
hepáticas. "Somos 120 pessoas que formamos uma associação em
Santos (SP). Descobrimos a doença depois que uma médica denunciou
a presença de um aterro de lixo químico num bairro próximo da
cidade. Pela empresa, que produz peças plásticas, nunca teríamos
ido a um médico. A empresa não quer nem saber, faz tudo para não
assumir", conta José.
Sebastião
Domingos
De dois em dois meses
vai ao posto do INSS provar que merece seguir recebendo a indenização
de R$ 400. Teve queda de leucócitos, as resistências do organismo
baixaram tanto que uma infecção no globo ocular acabou cegando-lhe
um olho
Luiz Carlos
Silva
Quando começou a
trabalhar em siderúrgica tinha 6.800 leucócitos por ml de sangue.
O contato com o benzeno lhe causou Ieucopenia e terminou
afastado do emprego. Ano passado, recebeu alta, mas segue doente e não
arranja emprego
Eliazar Malvão
Trabalhava na manutenção
dos fornos da Companhia Siderúrgica Nacional até dezembro de 1985
quando um acidente provocou o vazamento de benzeno e o contaminou
junto com mais 11 colegas. Todos sofrem até hoje de benzolismo.
Fonte: Correio
Brasiliense / DF 28-06-2001 |